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Saturday, February 10, 2018

Guénon e o Fim dos Tempos: O Fim de Um Mundo


Os vários assuntos tratados no curso deste estudo constituem o que no todo podem ser, de modo geral, apelidados de ‘sinais dos tempos’ no sentido dos Evangelhos, por outras palavras, os sinais precursores do ‘fim de um mundo’ ou de um ciclo. Este fim apenas parece ser o ‘fim do mundo’, sem qualquer reserva ou especificação de qualquer tipo, para aqueles que não veem nada para além dos limites deste ciclo específico; um erro muito desculpável, é verdade, mas um que no entanto tem consequências lastimáveis nos terrores excessivos e injustificados a que dá azo naqueles que não se encontram suficientemente desligados da existência terrestre; e naturalmente são tais as mesmas pessoas que mais facilmente formam esta conceção errónea, apenas por razão da estreiteza do seu ponto de vista. Na verdade podem existir muitos ‘fins do mundo’, porque existem ciclos de muita variada duração, contidos uns nos outros, e também porque esta mesma noção pode ser sempre aplicada analogicamente em todos os graus e em todos os níveis; mas é óbvio que estes ‘fins’ contêm uma importância desigual, como também os próprios ciclos aos quais pertencem; e nesta conexão deve ser reconhecido que o fim agora em consideração é inegavelmente de considerável maior importância que muitos outros, pois é o fim de um Manvantara completo, e portanto da existência temporal do que justamente pode ser chamado de uma humanidade, mas isto, seja dito uma vez mais, de modo algum implica que signifique o fim do próprio mundo terrestre, porque, através da ‘retificação’ que tomará lugar no instante final, este fim tornar-se-á imediatamente o início de outro Manvantara.

Enquanto nesta matéria, existe ainda um ponto adicional que necessita ser explicado mais precisamente: os partidários do ‘progresso’ têm o hábito de dizer que a ‘idade de ouro’ não se encontra no passado mas no futuro; no entanto, a verdade é que no que respeita ao nosso Manvantara ela encontra-se no passado, pois não é outra coisa que não o próprio ‘estado primordial’. Existe no entanto um pressentimento de que ela se encontra tanto no passado como no futuro, mas apenas na condição de que a atenção não se confine ao atual Manvantara mas seja estendida a incluir a sucessão de ciclos terrestres, pois no que respeita ao futuro tudo menos a ‘idade de ouro’ de outro Manvantara pode ser colocado em questão; está portanto separada do nosso período por uma ‘barreira’ completamente intransponível aos profanos que dizem tal tipo de coisa, e não possuem qualquer tipo de ideia do que falam quando anunciam a aproximação de uma ‘nova era’ como sendo uma a que a atual humanidade esteja ligada. O seu erro, na sua forma mais extremada, será o do próprio Anticristo quando ele reclama trazer à existência uma nova ‘idade de ouro’ através do reinado da ‘contra-tradição’, e quando ele lhe dá uma aparência de autenticidade, puramente traiçoeira e efémera, por meio de uma contrafação da ideia tradicional do Sanctum Regnum; isto torna claro a razão do acima mencionado papel desempenhado pelas conceções ‘evolucionistas’ em todas as ‘pseudo-tradições’, e apesar destas ‘pseudo-tradições’ ainda serem ‘prefigurações’ muitos parciais e débeis da ‘contra-tradição’, no entanto elas estão sem dúvida a contribuir inconscientemente mais diretamente que alguma outra coisa para os preparativos da sua chegada. A ‘barreira’ recentemente aludida, que num sentido compele aqueles para a qual existe a confinarem-se inteiramente ao interior do presente ciclo, é claramente um obstáculo ainda mais insuperável para os representantes da ‘contra-iniciação’ do que é para aqueles para quem nada existe fora do presente ciclo, e será portanto especialmente para eles que o fim do ciclo tem necessariamente de ser o ‘fim do mundo’ no sentido mais completo que a expressão pode conter.

Isto levanta outra questão relacionada, sobre a qual algumas palavras devem ser ditas, apesar de na verdade uma resposta já estar implicitamente contida em algumas considerações previamente abordadas, isto é: em que medida estão as pessoas que mais completamente representam a ‘contra-iniciação’ efetivamente conscientes do papel que estão a desempenhar, e em que medida são elas por outro lado meros instrumentos de uma vontade que ultrapassa a sua própria, e portanto delas está escondida, apesar de estarem inexoravelmente subordinadas a ela? De acordo com o que acima foi dito, os limites entre os dois pontos de vista sobre os quais a sua ação pode ser concebida são determinados essencialmente pelos limites do mundo espiritual, o qual não conseguem penetrar de modo algum; poderão possuir um conhecimento tão extensivo quanto possível das possibilidades do ‘mundo intermédio’, mas este conhecimento será sempre, no entanto, irremediavelmente falsificado pela ausência do espírito, que só ele lhe pode fornecer verdadeira significação. Obviamente tais seres nunca podem ser mecanicistas ou materialistas, nem mesmo partidários do ‘progresso’ ou ‘evolucionistas’ no sentido comum dos termos, e quando eles promulgam no mundo as ideias que estas palavras expressam, estão a praticar uma fraude consciente; mas estas ideias referem-se apenas à ‘anti-tradição’ meramente negativa, que para eles é apenas um meio e não um fim, e eles podiam, como toda a gente, procurar desculpar a sua fraude dizendo que ‘o fim justifica os meios’. Este erro é de uma ordem muito mais profunda que o dos homens que eles influenciam e aos quais aplicam ‘sugestões’ por via dessas ideias, pois não surge de outro modo que não da consequência da sua total e invencível ignorância acerca da verdadeira natureza de toda a espiritualidade; isto torna muito mais difícil dizer exatamente até que ponto eles podem estar conscientes da falsidade da ‘contra-tradição’ que buscam estabelecer, pois eles podem verdadeiramente acreditar que, assim o fazendo, estão a opor o espírito manifestado em toda a tradição normal e regular, e estão situados ao mesmo nível dos que a representam neste mundo; e neste sentido o Anticristo seguramente tem de ser o mais ‘iludido’ de todos os seres. Esta ilusão tem a sua raiz no erro ‘dualista’ já mencionado; dualismo é encontrado de uma forma ou de outra em todos os seres cujo horizonte não se estende para lá de certos limites mesmo se os limites são aqueles do inteiro mundo manifestado; tais pessoas não conseguem resolver a dualidade que veem em todas as coisas que jazem nesses limites referindo-a a um princípio superior, e portanto pensam que é realmente irredutível e são por tanto levados a uma negação da Unidade Suprema, que de facto é para eles como se não existisse. Por esta razão foi possível dizer que os representantes da ‘contra-iniciação’ são no fim contas meros joguetes do papel que eles mesmos desempenham, e que a sua ilusão é na verdade a maior ilusão de todas, já que é positivamente a única onde um ser pode, não apenas ser seriamente mais ou menos desviado, mas na verdade tornar-se irremediavelmente perdido; no entanto, se eles não se encontrassem tão iludidos, claramente não estariam a desempenhar uma função que tem de ser desempenhada, como qualquer outra função, para que o plano Divino possa ser realizado neste mundo.

Isto leva-nos de volta à consideração do duplo aspeto, benéfico ou ‘maléfico, de toda a história do mundo, vista como um ciclo de manifestação; e esta é na verdade a ‘chave’ para todas as explicações tradicionais das condições sob as quais esta manifestação é desenvolvida, especialmente quando está a ser considerada, como agora, no período que a levará diretamente ao seu fim. Por um lado, se esta manifestação é simplesmente tomada em si mesma, sem a referir a um todo muito maior, o processo inteiro desde o seu início até ao seu fim é claramente um de progressiva ‘descida’ ou de ‘degradação’, e isto é o que pode ser apelidado como o seu aspeto ‘maléfico’; mas, por outro lado, a mesma manifestação, quando colocada de volta no todo de que é uma parte, produz efeitos que têm um resultado verdadeiramente ‘positivo’ na existência universal; e o seu desenvolvimento deve ser levado a cabo até ao fim, para incluir um desenvolvimento das possibilidades inferiores da ‘idade escura’, de modo a que a ‘integração’ desses resultados se torne possível e se possa tornar o princípio imediato de outro ciclo de manifestação; isto é o que constitui o aspeto ‘benéfico’. O mesmo aplica-se quando o próprio fim de ciclo é considerado: do ponto de vista especial do que tem então de ser destruído porque a sua manifestação terminou e se encontra como exausto, o fim é naturalmente ‘catastrófico’ no sentido etimológico, no qual o mundo evoca a ideia de uma ‘queda’ súbita e irreparável; mas, por outro lado, do ponto de vista de acordo com o qual a manifestação, ao desaparecer como tal, é trazida de volta ao seu princípio no que concerne a tudo o que é positivo na sua existência, este mesmo fim aparece pelo contrário como a ‘retificação’ de onde, como explicado, todas as coisas são subitamente restabelecidas no seu ‘estado primordial’. Além disso isto pode ser analogicamente aplicado em todos os graus, seja um ser ou um mundo em questão: em resumo, é sempre o ponto de vista parcial que é ‘maléfico’, e o ponto de vista que é total, ou relativamente total com respeito ao outro, que é ‘benéfico’, porque todas as desordens possíveis apenas são desordens quando consideradas em si mesmas e ‘separativamente’, e porque estas desordens parciais são eliminadas completamente na presença da ordem total na qual são ultimamente fundidas, constituindo, quando despidas do seu aspeto ‘negativo’, elementos dessa ordem comparáveis a todos ou outros; não existe de facto nada que seja ‘maléfico’ exceto as limitações que necessariamente condicionam toda a existência contingente. Os dois pontos de vista, respetivamente ‘benéfico’ e ‘maléfico’, foram previamente abordados como se fossem de algum modo simétricos; mas é fácil entender que eles não são nada dessa espécie, e que o segundo apenas significa algo que é instável e transitório, já que apenas o que o primeiro representa tem um caráter permanente e positivo, para que o aspeto ‘benéfico’ possa senão prevalecer no final, enquanto o aspeto ‘maléfico’ completamente desvanece porque na realidade era apenas uma ilusão inerente na ‘separatividade’. No entanto, a verdade é que então não se torna mais apropriado usar a palavra ‘benéfico’ do que a palavra ‘maléfico’, pois os dois termos são essencialmente correlativos e não podem ser usados corretamente para indicar uma oposição quando ela não mais existe, pois ela pertence, como todas as oposições, exclusivamente a um particular domínio relativo e limitado; logo que os limites desse domínio são ultrapassados, existe apenas aquilo que é, e que não pode senão ser, ou ser outra coisa do que é; e como consequência, se não se parar antes da mais profunda ordem de realidade, pode ser dito em toda a verdade que ‘o fim de um mundo’ nunca é e nunca pode ser outra coisa que não o fim de uma ilusão.

Sunday, January 28, 2018

Guénon e o Fim dos Tempos: A Grande Paródia ou a Espiritualidade Invertida



Continuando a nossa série ‘Guénon e o Fim dos Tempos’, deixamos a tradução do penúltimo capítulo da obra ‘O Reino da Quantidade’, intitulado ‘A Grande Paródia ou a Espiritualidade Invertida’.

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De tudo que até agora tem sido dito, é fácil deduzir que o estabelecimento da ‘contra-tradição’ e o seu aparente triunfo momentâneo será com efeito o reino do que tem sido chamado de ‘espiritualidade invertida’; esta última é, claro, apenas uma paródia da espiritualidade, imitando-a de um modo inverso, para que pareça ser o seu exato oposto; aparece como o seu oposto, mas tal não o é, pois quaisquer que sejam as suas pretensões nenhuma simetria ou equivalência entre uma e a outra são possíveis. Este ponto deve ser insistido, pois muitas pessoas permitem-se enganar pelas aparências e imaginam que existem no mundo dois princípios contrários competindo um contra o outro pela supremacia; esta é uma conceção errónea, idêntica àquela comummente atribuída, correta ou incorretamente, aos maniqueus, e que consiste, para usar de uma linguagem teológica, em colocar Satã ao mesmo nível de Deus. Existem certamente hoje muitas pessoas que são ‘maniqueus’ neste sentido sem o saberem, e isto é também o efeito de uma ‘sugestão’ tão perniciosa como qualquer outra. A conceção exposta corresponde à afirmação de uma dualidade de princípio fundamentalmente irredutível, ou em outras palavras, a uma negação da suprema Unidade que se encontra para lá de todas as oposições e antagonismos; que tal negação seja feita por aderentes da ‘contra-iniciação’ não deve causar surpresa, e deve até ser sincera da sua parte, já que o domínio metafísico para eles encontra-se totalmente fechado: é então evidentemente necessário para eles propagar a conceção e impô-la noutros, pois de nenhum outro modo eles conseguem obter sucesso em serem tomados pelo que não são e pelo que nunca podem ser, nomeadamente, representantes de algo que pode ser colocado no mesmo nível que a espiritualidade e que pode eventualmente prevalecer sobre ela.

Esta ‘espiritualidade invertida’ é portanto com toda a certeza apenas uma falsa espiritualidade, mas é falsa no mais extremo grau concebível; a falsa espiritualidade pode ser falada em todos os casos em que, por exemplo, o psíquico é tomado pelo espiritual, sem necessariamente chegar ao ponto da subversão total, e tal é porque a expressão ‘espiritualidade invertida’ se encontra mais bem equipada para designar a subversão total, provido que o modo em que deve ser entendida é precisamente especificado. É na verdade identificável com a ‘renovação espiritual’ o crescente aproximar que é persistentemente anunciado por pessoas que amiúde desconhecem a sua natureza real; ou de novo, é a ‘new age’, para a qual a presente humanidade está a ser guiada por todos os meios disponíveis,1 e o estado geral de ‘expectativa’ criado pela difusão das aludidas profecias tem de facto de contribuir efetivamente para apressar a sua chegada. A atração por ‘fenómenos’, já tomada em conta como um dos fatores determinantes na confusão entre o psíquico e o espiritual, pode também jogar um papel muito importante, já que a maioria dos homens serão apanhados e enganados por tal na altura da ‘contra-tradição’, já que é dito que os ‘falsos profetas’ que irão surgir nessa altura ‘demonstrarão grandes sinais e feitos, para assim confundir, se possível, até os escolhidos’.2

É particularmente nesta conexão que as manifestações de ‘metafísica’ e as várias formas de ‘neo-espiritualismo’ podem mesmo hoje ser tomadas como uma forma de ‘prefiguração’ do que deverá mais tarde acontecer’ apesar de elas apenas forneceram uma ideia muito pálida de tal. Em princípio, a ação desses mesmos poderes inferiores subtis estará envolvida, mas tais poderes serão postos a trabalhar com uma força incomparavelmente maior; e quando se vê quantas pessoas estão sempre dispostas a colocar confiança cega em todas as divagações de um mero ‘médium’, simplesmente porque são suportados por ‘fenómenos’, não é surpreendente que a sedução será então mais disseminada. Tal é porque, nunca é demais repetir, os ‘fenómenos’ por si mesmos não provam absolutamente nada onde a verdade de uma doutrina ou de qualquer espécie de ensinamento se aplique, e que os ‘fenómenos’ são o domínio especial da ‘grande ilusão’, pelo que tudo o que as pessoas tão rapidamente tomam como sinais de ‘espiritualidade’ podem sempre ser simulados e falsificados pelo jogo das forças inferiores em questão. Este é talvez o único campo no qual a imitação pode ser realmente perfeita, porque os próprios ‘fenómenos’ (a palavra sendo tomada no seu sentido próprio de aparências externas), irão de facto ser produzidos em ambos os casos, a diferença consistindo apenas na natureza das causas envolvidas em cada. A grande maioria dos homens são inevitavelmente incapazes de determinar a natureza dessas causas, pelo que não há dúvida que a melhor coisa a fazer é a de não dar a mais pequena importância a qualquer coisa ‘fenoménica’, ou talvez melhor ainda considerá-la a priori como um sinal desfavorável; mas como pode isto tornar-se compreensível para a mentalidade ‘experimental’ dos nossos contemporâneos, uma mentalidade primeiro moldada pelo ponto de vista ‘científico’ da ‘anti-tradição’, e finalmente tornando-se num dos mais potencialmente efetivos fatores contributivos no sucesso da ‘contra-tradição’?

O ‘neo-espiritualismo’ e a ‘pseudo-iniciação’ procedente dela são também de outro ponto de vista uma ‘prefiguração’ parcial da ‘contra-tradição’. A referência já foi feita à utilização de elementos autenticamente tradicionais na origem, pervertidos do seu significado verdadeiro, e então em certa medida traduzidos para o serviço do erro; esta perversão é apenas um movimento na direção da reversão completa que deve caracterizar a ‘contra-tradição’ (o caso da reversão intelectual de símbolos tratada anteriormente sendo um exemplo significativo); mas nessa altura não mais existirão apenas uns quantos elementos fragmentários e espalhados envolvidos, porque será necessário produzir a ilusão de algo comparável, na verdade de algo pretendido pelos seus autores a ser equivalente àquilo que constitui a integralidade da verdadeira tradição, incluindo as suas aplicações externas em todos os domínios. Pode ser observado nesta conexão que a ‘contra-iniciação’, apesar de ter inventado e propagado para os seus próprios propósitos todas as ideias modernas que juntas representam a ‘anti-tradição’ meramente negativa, está perfeitamente consciente da falsidade dessas ideias, e obviamente sabe muito bem que atitude adotar a respeito delas; mas tal em si mesmo indica que a intenção em propagá-las apenas pode ter sido a consecução de uma fase transitória e preliminar, pois tal empresa de falsificação consciente não poderia ser em si mesma o verdadeiro e único alvo em vista; foi só desejada para preparar a vinda final de algo diferente, algo que devia aparecer constituir um feito mais ‘positivo’, nomeadamente, a própria ‘contra-tradição’. Esta é a razão por que já se pode ver esboçada, em várias produções de origem ou inspiração indubitavelmente ‘contra-iniciáticas’, a ideia de uma organização que seria a contraparte, mas pelo mesmo diapasão também a contrafação, de uma conceção tradicional como a do ‘Sacro Império’, e tal organização deve tornar-se a expressão da ‘contra-tradição’ na ordem social; e por razões similares o Anticristo deve aparecer como algo que poderia ser chamado, usando a linguagem da tradição Hindu, de um Chakravarti invertido.3

O reino da ‘contra-tradição’ é na verdade precisamente o que é conhecido como o ‘reino do Anticristo’, e o Anticristo, independentemente de todas as preconceções possíveis, é no final de contas aquilo que irá concentrar e sintetizar nele próprio, para esta tarefa última, todos os poderes da ‘contra-iniciação’, seja ele concebido como um indivíduo ou como uma coletividade. Poderia até, num certo sentido, ser ambos ao mesmo tempo, pois tem de existir uma coletividade que seja como que a ‘exteriorização’ da própria organização ‘contra-iniciática’ quando finalmente aparecer à luz do dia, e também deve existir uma pessoa que estará à cabeça da coletividade, e como tal ser a expressão mais completa e inclusive a própria ‘encarnação’ do que irá representar, nem que apenas seja na capacidade de ‘suporte’ a todas as influências maléficas que ela irá primeiro conter nela própria e então projetar no mundo.4 Esta entidade será obviamente um ‘impostor’ (este é o significado da palavra dajjal pela qual ela é usualmente designada em arábico) já que o seu reino não será outra coisa que não a ‘Grande Paródia’ na sua forma mais completa, a imitação ‘satânica’ e a caricatura de tudo o que é verdadeiramente tradicional e espiritual; no entanto ele será criado de tal modo, assim dizendo, que será inteiramente impossível para ele não cumprir tal papel. O seu tempo não será certamente mais o do ‘reino da quantidade’, que era ele próprio o ponto final da ‘anti-tradição’: será pelo contrário marcado, sob o pretexto de uma falsa ‘restauração espiritual’, por uma espécie de reintrodução de qualidade em todas as coisas, mas de qualidade invertida com respeito à sua significação normal e legítima.5 Depois do ‘igualitarismo’ dos nossos tempos irá existir de novo uma hierarquia visível estabelecida, mas uma hierarquia invertida, na verdade uma verdadeira ‘contra-hierarquia’, o pico da qual será ocupado pelo ser que na realidade estará situado mais próximo que qualquer outro do próprio fundo da ‘cova do inferno’.

Este ser, mesmo se aparecer na forma de uma particular ser humano individual, irá na verdade ser menos um indivíduo do que um símbolo, e será como se fosse a síntese de todo o simbolismo que foi invertido para os propósitos da ‘contra-iniciação’, e ele irá manifestá-lo tão completamente em si mesmo porque não terá nem predecessor nem sucessor. Em ordem a expressar o falso levado ao seu extremo ele terá de ser, por assim dizer, ‘falsificado’ de todos os pontos de vista e ser como uma encarnação da própria falsidade.6 Em ordem para que isto seja possível, e por razão da sua extrema oposição à verdade em todos os seus aspetos, o Anticristo pode adotar os próprios símbolos do Messias, usando-os é claro num sentido invertido;7 e a predominância atribuída ao aspeto ‘maléfico’, ou, mais precisamente, a sua substituição pelo aspeto ‘benéfico’ pela subversão do duplo significado dos símbolos, é o que constitui a sua marca característica. Do mesmo modo pode existir e deve existir uma estranha parecença entre as designações do Messias (al-masih em arábico) e as do Anticristo (al-masikh);8 mas as últimas serão apenas deformações do primeiro, como o Anticristo é representado como deformado em todas as descrições mais ou menos simbólicas que lhe têm sido dadas, e isto de novo é muito significativo. Estas descrições na verdade enfatizam particularmente as assimetrias corporais, e isto essencialmente implica que elas são os sinais visíveis da natureza real do ser ao qual elas são atribuídas, pois tais coisas são na verdade sempre sinais de algum desequilíbrio interior; esta é a razão de certas deformidades constituírem ‘desqualificações’ do ponto de vista iniciático, mas ao mesmo tempo pode facilmente ser imaginado que elas são ‘qualificações’ no sentido oposto, do ponto de vista da ‘contra-iniciação’. O próprio nome do último termo implica que se move em oposição à iniciação, consequentemente na direção de um aumento no desequilíbrio dos seres, levando finalmente à ‘dissolução’ ou ‘desintegração’ previamente referida. O Anticristo tem evidentemente de estar o mais próximo possível da ‘desintegração’, para que se possa dizer que a sua individualidade, enquanto se desenvolve de um modo monstruoso, é no entanto ao mesmo tempo praticamente aniquilada, realizando então o inverso do emagrecimento do ‘ego’ ante o ‘Ser’, ou por outras palavras, realizando a confusão no ‘caos’ como contra a fusão na Unidade primária; e este estado, representado pela própria deformidade e desproporção da sua forma corporal, está na verdade no limite mais baixo das possibilidades do nosso estado individual, pelo que o pico da ‘contra-hierarquia’ é de facto o local que na realidade lhe convém num ‘mundo de pernas para o ar’, que será o seu. Ademais, mesmo de um ponto de vista puramente simbólico, e na medida em que ele representa a ‘contra-tradição’, o Anticristo não é necessariamente menos deformado; já foi explicado que a ‘contra-tradição’ apenas pode ser uma caricatura da tradição, e caricatura implica deformação; além disso, se fosse doutro modo, não haveria meios de distinguir a ‘contra-tradição’ da verdadeira tradição, pelo que a primeira tem de carregar consigo a ‘marca do diabo’, para que ao menos ‘o eleito’ não seja seduzido. Além disto, o falso é necessariamente também o ‘artificial’, e neste respeito a ‘contra-tradição’ não pode falhar, apesar das suas outras características, de reter o caráter ‘mecânico’ pertencente a todas as produções do mundo moderno, do qual será a última; ainda mais exatamente, existirá nele algo comparável ao automatismo dos ‘cadáveres psíquicos’ falados anteriormente, e como eles será constituído por ‘resíduos’ animados artificialmente e momentaneamente, e isto de novo explica por que não pode conter nada durável; uma pilha de ‘resíduos’, galvanizados, por assim dizer, por uma vontade ‘infernal’: seguramente nada poderia dar uma ideia mais clara do que significa ter chegado ao próprio limite da dissolução.

Esta não parece ser a ocasião para nos demorarmos mais nestes assuntos; seria de pouco uso no final procurar prever em detalhe como é que a ‘contra-iniciação’ será constituída, e as indicações gerais já dadas devem ser praticamente suficientes para quem quiser elaborar para si próprio a sua aplicação em pontos particulares e qualquer tentativa desse tipo está de qualquer modo fora do âmbito da presente investigação. Essa investigação foi agora estendida à última etapa da ação anti-tradicional que deve guiar o mundo em direção ao seu fim; entre o reino efémero da ‘contra-tradição’ e o momento final do presente ciclo apenas se pode encontrar a ‘retificação’, a qual subitamente reporá as coisas no seu local normal no próprio momento em que a subversão parecer completa, preparando então de uma vez a ‘idade de ouro’ do ciclo futuro.


1  A extensão em que a expressão ‘new age’ se tem espalhado nestes dias e é repetida por todos os cantos é quase inacreditável, com a significação que pode amiúde aparecer diferente em diversos casos, mas que sempre tende positivamente para o estabelecimento da mesma persuasão na mentalidade do público.

2  Mat. 24:24.

3  No assunto do Chakravarti ou ‘monarca universal, ver  O Esoterismo de Dante e o Rei do Mundo. O Chakravarti é literalmente ‘aquele que faz a roda girar’ e implica que esteja situado no centro de todas as coisas, enquanto o Anticristo é pelo contrário o ser que mais afastado se encontrará desse centro; ele no entanto irá alegar ‘fazer a roda girar’, mas na direção oposta àquela do normal movimento cíclico (incidentalmente, isto é ‘prefigurado’ inconscientemente na moderna ideia de ‘progresso’), enquanto na verdade nenhuma alteração na rotação é possível antes da ‘reversão dos polos’, isto é, antes da ‘retificação’ que apenas pode ser trazida pela intervenção do décimo Avatara; além disso, o Anticristo irá parodiar à sua maneira a própria função do último Avatara, que é representado como a ‘segunda vinda de Cristo’, na tradição Cristã.

4  Ele pode portanto ser considerado como um chefe do awliya al-shaytan, e como ele será o último a cumprir essa função, e ao mesmo tempo a sua função terá então a sua importância mais manifesta no mundo, pode ser dito que ele será como o seu ‘selo’ (khatim), de acordo com a terminologia do esoterismo islâmico; não é difícil ver nisto a que ponto a paródia da tradição será levada em todos os seus aspetos.

5  O próprio dinheiro, ou o que quer que tome o seu lugar, irá de novo possuir um caráter qualitativo deste tipo, pois foi dito que ‘ninguém pode comprar ou vender, senão aquele que tiver o sinal, ou o nome da besta, ou o número do seu nome’ (Rev. 13:17), e isto sugere o uso efetivo, em ligação ao dinheiro, dos símbolos invertidos da  ‘contra-iniciação’.

6  Então ele será a antítese do dito de Cristo ‘Eu sou a Verdade’ ou da de um wali como al-Hallaj na mesma veia ‘ana'l-Haqq’.

7  ‘A analogia existente entre a verdadeira doutrina e a falsa talvez não tenha recebido atenção suficiente: St. Hipólito, na sua pequena obra sobre o Anticristo dá um exemplo memorável o qual não será surpresa para quem tenha estudado simbolismo: tanto o Messias como o Anticristo têm como seu emblema um leão.’ (P. Vulliaud, La Kabbale Juive, vol. II, p373). A razão profunda do ponto de vista cabalístico encontra-se na consideração das duas faces, luminosa e obscura, do Metraton; é também a razão do número Apocalíptico 666, o ‘número da Besta’, ser um número solar (cf. O Rei do Mundo).


8  Aqui existe uma duplo sentido intraduzível: Masikh pode ser tomado como uma deformação de Masiha, pela mera adição de um ponto à letra final; mas ao mesmo tempo a primeira palavra significa ‘deformado’, que corretamente expressa o caráter do Anticristo.

Sunday, January 21, 2018

Guénon e o Fim dos Tempos: Da Anti-Tradição à Contra-Tradição



Damos aqui início à tradução de uma série de reflexões de René Guénon sobre o Fim dos Tempos, intitulada ‘Guénon e o Fim dos Tempos’.

Deixaremos ao leitor primeiramente alguns capítulos de uma das obras maiores do Mestre intitulada ‘O Reino da Quantidade e os Sinais dos Tempos’. Reservamo-nos, se assim entendermos necessário, acrescentar capítulos de outros livros ou outros artigos do mesmo autor que se coadunem com o assunto em causa.

Para já, deixamos a tradução do antepenúltimo capítulo do Reino da Quantidade, ‘Da Anti-Tradição à Contra-Tradição’.

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O capítulo prévio tratou de assuntos que são, como tudo o que essencialmente pertence ao mundo moderno, radicalmente anti-tradicionais; mas num sentido eles vão ainda mais longe do que a ‘anti-tradição’, entendida como sendo pura negação e nada mais, pois levam ao estabelecimento de algo que pode mais apropriadamente ser designado por ‘contra-iniciação’. A distinção entre as duas é similar àquela antes feita entre desvio e subversão, e corresponde às mesmas duas fases da ação anti-tradicional tomada como um todo. A ‘anti-tradição’ encontrou a sua mais completa expressão no tipo de materialismo que podia ser chamado de ‘integral’, como o que prevalecia no final do século passado; quanto à ‘contra-iniciação’, apenas podemos ver dela os seus sinais preliminares, na forma de todas as coisas que ambicionam tornar-se, de algum modo, contrafações da própria ideia tradicional. E é conveniente apontar de uma vez que, como a tendência para a ‘solidificação’, expressando-se como ‘anti-tradição’, não consegui atingir o seu limite extremo – já que tal limite se encontraria fora e para além de toda a existência possível – pode ser expectável que a mesma se aplica à tendência de dissolução, que se expressa por sua vez na ‘contra-iniciação’. As próprias condições da manifestação, desde que o ciclo não esteja completado por inteiro, exigem obviamente que isto aconteça; e no que respeita ao próprio final do ciclo, pressupõe a ‘retificação’ por onde as tendências ‘maléficas’ se ‘transmutam’ para produzir um resultado ‘benéfico’, como já acima foi explicado. Além do mais, todas as profecias (aqui a palavra é obviamente usada no seu sentido legítimo) indicam que o aparente triunfo da ‘contra-tradição’ seja um triunfo temporário, e que no próprio momento em que parece mais completo será destruído pela ação de influências espirituais que intervirão neste ponto para preparar a ‘retificação’ final.1 Nada menos que uma intervenção direta deste tipo chegaria para trazer a um fim, no tempo escolhido, a mais formidável e a mais verdadeiramente ‘satânica’ de todas as possibilidades incluídas na manifestação cíclica; mas tal é suficiente por via de antecipação, e agora é necessário continuar com um exame mais cuidado da real natureza da ‘contra-tradição’.

Para tal propósito, o papel a ser cumprido pela ‘contra-iniciação’ deve de novo ser referido: após ter trabalhado sempre nas sombras para inspirar e comandar invisivelmente todos os movimentos modernos, no final irá forjar a sua ‘exteriorização’, se tal é a palavra correta, algo que será como se fosse a contraparte de uma verdadeira tradição, pelo menos tão completamente e exatamente como tal seja possível dentro das limitações necessariamente inerentes em todas as possíveis contrafações como tal. Como a iniciação é, como explicado, a coisa que efetivamente representa o espírito de uma tradição, assim irá a ‘contra-iniciação’ desempenhar um papel comparável com respeito à ‘contra-tradição’; mas seria obviamente muito errado e impróprio falar do espírito no segundo caso, já que se ocupa daquilo do que o espírito se encontra mais completamente ausente, aquilo que até seria o seu oposto se o espírito não se encontrasse essencialmente para lá de toda a oposição; de qualquer modo a oposição é inegavelmente ambicionada, e é acompanhada por imitação no modo da sombra invertida previamente referia em mais de uma ocasião. É por tal razão que a ‘contra-tradição’, não importa quão longe leve a imitação, nunca poderá suceder a ser algo mais do que uma paródia, mas será a mais extrema e a mais gigantesca das paródias, e temos até agora visto, apesar de toda a falsificação do mundo moderno, algumas ‘tentativas’ muito parciais e algumas muito pálidas ‘prefigurações’ da mesma; algo muito mais formidável está em preparação para um futuro considerado por alguns como estando próximo, sendo a crescente rapidez da sucessão de eventos de hoje uma indicação da sua proximidade. Desnecessário será dizer que nenhuma tentativa será aqui encetada para apontar datas mais ou menos precisas, à semelhança dos seguidores das autointituladas ‘profecias’; e se mesmo tal fosse possível fazer através de um conhecimento da exata duração dos períodos cíclicos (a principal dificuldade em tais casos cai sempre no correto estabelecimento do ponto de partida a tomar como base do cálculo), seria no entanto apropriado manter a reserva mais restrita sobre os resultados, e tal por razões exatamente contrárias àquelas que influenciam os propagadores conscientes e inconscientes de profecias desnaturadas, isto é dizer, em ordem para não correr o risco de contribuir para um maior crescimento da ansiedade e da desordem hoje reinantes no nosso mundo.

De qualquer modo, o que torna possível que as coisas tenham chegado a tal ponto é que a ‘contra-iniciação’ (e isto é algo que tem de ser dito) não pode ser considerada como uma invenção puramente humana, de tal modo que não seria de qualquer modo distinguível pela sua natureza da ‘pseudo-iniciação’ básica; de facto é muito mais que isso, e, em ordem para que tal realmente seja, deve em algum sentido proceder, no que respeita à sua verdadeira origem, da única fonte à qual toda a iniciação se encontra ligada, a mesma fonte da qual, falando mais geralmente, procede tudo no nosso mundo que manifesta um elemento ‘não-humano’; mas a ‘contra-iniciação’ procede daquela fonte por uma degeneração levada ao seu limite extremo, e esse limite é representado pela ‘inversão’ que constitui o ‘satanismo’ propriamente dito. Uma degeneração deste tipo é obviamente muito mais profunda do que a de uma tradição meramente desviada em certo grau, ou mesmo truncada e deixada apenas com a sua parte menos elevada; algo mais se encontra envolvido até que em casos de tradições mortas tão completamente abandonadas pelo espírito que a própria ‘contra-iniciação’ pode fazer uso dos seus ‘resíduos’ para os seus propósitos egoístas, como antes explicado. Isto leva logicamente ao pensamento de que esta degeneração extrema tem origem num passado muitíssimo distante; e, obscura seja a questão das suas origens, existe alguma plausibilidade na ideia de que pode estar ligada à perversão de uma das antigas civilizações pertencentes a um dos continentes que desapareceram nos cataclismos ocorridos no curso do atual Manvantara.2 De qualquer modo é desnecessário afirmar que mal o espírito desapareceu não mais é possível falar de iniciação; os representantes da ‘contra-iniciação’ estão na verdade tão completamente ignorantes como as normais pessoas profanas, e mais irremediavelmente ignorantes do essencial, noutras palavras, de toda a verdade de uma ordem espiritual e metafísica, pois esta verdade tornou-se para eles completamente estranha, até nos seus princípios mais elementares, desde que para eles o ‘céu se fechou’.3 Já que nem pode guiar seres em direção a estados ‘supra-humanos’ como o pode a iniciação, nem confinar-se exclusivamente ao domínio humano, a ‘contra-iniciação’ leva-os inevitavelmente em direção ao ‘infra-humano’, e o poder para o fazer é precisamente o único poder efetivo que lhe resta; é muito fácil ver que isto é algo de muito diferente da comédia da ‘pseudo-iniciação’. No esoterismo islâmico é dito que quem se apresentar em determinado ‘portão’, sem o ter atingido de modo normal e legítimo, vê-o fechar-se na sua cara e é obrigado a voltar, mas não como uma mera pessoa profana, pois tal nunca pode ele voltar a ser, mas como um sãher (um feiticeiro ou um mágico trabalhando no domínio das possibilidades subtis de uma ordem inferior).4 Seria impossível colocar a posição mais claramente; é uma questão da via ‘infernal’ tentar opor a via ‘celestial’, e na realidade atingir as aparências externas de oposição, apesar de tais aparências apenas poderem ser ilusórias; e, como foi anteriormente apontado quando se falou da falsa espiritualidade na qual alguns seres, que estão comprometidos numa espécie de ‘realização invertida’, se perderem, esta via só pode terminar por fim na total ‘desintegração’ do ser consciente e na sua dissolução final.5

Naturalmente, em ordem para que a imitação por reflexão invertida possa ser tão completa quanto possível, centros são plausíveis de serem estabelecidos aos quais as organizações pertencentes à ‘contra-iniciação’ estarão ligadas. Estes centros, claro está, serão puramente ‘psíquicos’, como as influências que eles usam e transmitem, e de modo algum espirituais, como os centros de iniciação e os da verdadeira tradição, mas serão capazes, pelas razões dadas, de assumirem até um ponto as características exteriores de centros espirituais, produzindo então a característica ilusão de ‘espiritualidade invertida’. Mas não será causa para surpresa se estes mesmos centros, e não meramente algumas das organizações que a eles estão mais ou menos diretamente subordinadas, se encontrem envolvidos em lutas uns com os outros, pois o domínio no qual estão colocados é o domínio mais próximo da dissolução ‘caótica’, e portanto a todas as oposições são dadas rédea livre nele, e não são harmonizadas e reconciliadas pela ação direta de um princípio superior, que necessariamente falta em tal caso. O resultado amiúde é uma impressão de confusão e de incoerência em tudo ligado com as manifestações destes centros e das suas ramificações, e tal impressão não é certamente ilusória; é até uma ‘marca’ característica de tais coisas; eles apenas podem concordar como que negativamente, na luta comum contra os verdadeiros centros espirituais, desde que os últimos estejam situados num nível no qual tal luta possa ter lugar, isto é desde que estes estejam interessados num domínio que não se estenda para lá dos limites do nosso estado individual.6 É aqui que o que propriamente pode ser chamado como a ‘estupidez do diabo’ se torna aparente: os representantes da ‘contra-iniciação’ que atuam deste modo são iludidos a pensar que eles estão a opor o próprio espírito, apesar de nada se lhe poder opor na realidade; mas ao mesmo tempo, apesar deles próprios e desconhecido para eles mesmos, eles lhe estarem na verdade subordinados e nunca poderem deixar de o estar, pois tudo o que existe está submetido, ainda que inconsciente e involuntariamente, à Vontade divina, da qual nada pode escapar. Então eles estão na verdade a ser usados, apesar de contra a sua vontade, e apesar de eles poderem manter uma crença contrária, para a realização do ‘plano divino no domínio humano’;7 como todos os outros seres eles tomam a parte desse plano que melhor corresponde à sua natureza, mas em vez de estarem efetivamente conscientes desse papel, como o estão os verdadeiros iniciados, eles apenas se encontram conscientes do seu aspeto negativo e invertido. Portanto eles próprios são joguetes, e de uma maneira tal é muito pior para eles do que é a mera ignorância do profano, já que, em vez de se manterem como estavam no mesmo ponto, tem o efeito de os levar para ainda mais longe do centro principal, até finalmente caírem nas ‘trevas extremas’. Mas se o assunto é observado, não em relação a estes seres, mas em relação ao mundo como um todo, tem de ser admitido que eles são necessários no lugar que ocupam como elementos desse todo, como todos os outros seres, e como instrumentos ‘providenciais’ (para usar linguagem teológica) na passagem do mundo através do seu ciclo de manifestação, pois todas as desordens parciais, mesmo quando elas parecem ser num certo sentido a desordem suprema, devem, no entanto, de algum modo necessariamente contribuir para a ordem total.

Estas poucas considerações devem tornar mais fácil entender o porquê da constituição da ‘contra-iniciação’ ser possível, mas também porque é que ela nunca pode ser de outro modo que não seja eminentemente instável e quase efémero, mas isto não prevenir ela ser em si mesma, como foi anteriormente dito, a mais formidável de todas as possibilidades. Será também percebido que este é o objetivo a que a ‘contra-iniciação’ realmente aponta e sempre apontou através de todo o curso da sua atividade, e que e ‘anti-tradição’ meramente negativa apenas representa uma preparação necessária. Agora só falta investigar mais detalhadamente o que pode ser previsto, com a ajuda de várias indicações concordantes, das modalidades nas quais a ‘contra-tradição’ é expetável ser realizada no futuro.


1  A esta verdade está relacionada a fórmula ‘quando tudo parecer perdido, então é quando tudo será salvo’, repetida num certo modo mecânico por um considerável número de ‘videntes’, cada um dos quais é claro aplicou-o a algo que ele pode entender, normalmente a eventos de menor importância comparativa, até a alguns bastante secundários e meramente ‘locais’, por virtude da tendência ‘minimizante’ já mencionada em conexão com as histórias do ‘Grande Monarca’, levando a vê-lo como nada mais que o futuro rei de França; é desnecessário dizer que as verdadeiras profecias preocupam-se com assuntos de dimensões bem diferentes.

2  O sexto capítulo do Génesis talvez possa fornecer, de um modo simbólico, algumas indicações relativas à origem distante da ‘contra-iniciação’.

3  O simbolismo da ‘queda dos anjos’ pode ser aplicado analogicamente ao assunto em questão, que corresponde exatamente à ordem humana; e tal é a razão da palavra ‘satânico’ ser usada no mais preciso sentido nesta conexão.

4  O último grau da hierarquia ‘contra-iniciática’ é ocupado pelo que são chamados de ‘santos de Satã’ (awliyii' al-shaytiin) que são num sentido o inverso dos verdadeiros santos (awliya' al-Ra~man), assim manifestando a mais completa expressão possível de ‘espiritualidade invertida’ (cf. The Symbolism of the Cross).

5  Uma finalidade tão conclusiva representa apenas um caso excecional, que é o de awliya' al-slzaytan; o destino daqueles que foram menos longe nessa mesma direção é apenas o de serem abandonados na estrada que leva a nenhures, à qual eles podem ser confinados para a indefinidade de um ‘àeon’ ou ciclo.

6  Do ponto de vista iniciático este domínio é o do que é conhecido como os ‘mistérios menores’; por outro lado, tudo ligado aos ‘mistérios maiores’ é essencialmente de uma ordem ‘supra-humana’, e está portanto fora do âmbito de qualquer oposição desse tipo, já que pertence ao domínio que pela sua própria natureza se encontra absolutamente fechado e inacessível à ‘contra-iniciação’ e aos seus representantes de todos os níveis.

7  AI-Tadab r al-ilahiyyah fi'l-mamlakat al-insaniyyah, títudo do tratado de Mubyi' d-Din ibn al-'Arabi.

Saturday, October 21, 2017

Tradução: O Centro Supremo Oculto Durante o Kali-Yuga






Em baixo tradução do capítulo “O Centro Supremo Oculto Durante o Kali-Yuga”, do Livro “O Rei do Mundo”, de René Guénon.

O autor, nesta obra, debruça-se sobre o mito da existência de um ser ou local que, no planeta terra, representaram ou ainda representam o ponto de contacto com a Tradição Primordial e com o Princípio Universal, o qual é referenciado em lendas e mitos tradicionais das mais diversas épocas e geografias, como por exemplo o do Rei Artur, que intui a uma conhecimento esotérico ligado a um centro a ser atingido por um ser eleito dotado de poderes sobrenaturais, ou de Melquisedeque, da qual Jesus Cristo teria sido um Sumo Sacerdote da sua Ordem (Epístola aos Hebreus, 5,10).

Neste curto capítulo, o autor reflecte sobre as possibilidades de existência no Ocidente da manutenção de centros iniciáticos que permitam a transmissão própria deste princípio a quem assim esteja disposto e capacitado, especialmente dadas as presentes condições da humanidade, que desde há milénios se encontra mergulhada na dita “Idade de Ferro”; quem foram os seus legítimos portadores e os processos que levaram ao seu desaparecimento para outras paragens terrestres.


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Agarttha, é dito, nem sempre existiu de forma subterrânea, e não subsistirá assim para sempre. Um dia virá quando, de acordo com Ossendowski, “o povo de Agharti irá sair das grutas e reaparecerá à superfície da terra1”. Antes da sua desaparição do mundo visível, o centro tinha um outro nome já que “Agarttha”, que significa “inalcançável” ou “intangível” (e também “inviolável” assim como é também Salem, “a morada da paz”), ainda não se tinha tornado apropriado. Ossendowski data a sua retirada subterrânea desde há “mais de seis mil anos atrás”, o que corresponde, numa aproximação razoável, ao início do Kali-Yuga, ou a “Idade Negra”, “a Idade de Ferro” do antigo Ocidente, que é o último dos quatros períodos em que o Manvatara está dividido2. O seu reaparecimento deverá portanto coincidir com o fim do mesmo período.

Referência já foi feita a algo que está perdido ou escondido, comunicado em todas as tradições, e a qual é representada por diferentes símbolos; num sentido geral esta perda bate exactamente com as condições da humanidade durante a Kali-Yuga. O período corrente é um de obscurecimento e de confusão3, as suas condições são tais que o conhecimento iniciático deve permanecer escondido enquanto este perdure, o que explica a natureza dos “Mistérios” da antiguidade histórica (a qual não data sequer do início do nosso período)4 e as sociedades secretas de todos os povos. Tais organizações fornecem uma iniciação efectiva apenas onde ainda existe uma autêntica doutrina tradicional, oferecendo apenas uma sombra quando o espírito da doutrina já não vivifica os símbolos que são meramente as suas representações exteriores; isto acontece quando, por diversas razões, a ligação consciente com o supremo centro espiritual do mundo é ultimamente quebrada. Esta perda de uma ligação direta e efectiva com o centro supremo é o aspecto mais significativo da perda de uma tradição, a qual afeta particularmente os centros secundários e dependentes.

É importante compreender que deveríamos estar a falar de algo que se encontra escondido em vez de estar verdadeiramente perdido, porque não se encontra perdido para todos mas é ainda possuído na sua plenitude, apesar de o ser por uns poucos. Isto conduz à possibilidade de alguns a redescobrirem, desde que a busquem da maneira própria, o que significa que a sua intenção deve estar direcionada de tal modo que, através das vibrações harmoniosas que desperta, permite que uma comunicação espiritual efectiva seja feita com o Centro Supremo,5 através da lei das “acções e reações concordantes”.6 Em todas as formas tradicionais a correta intenção é sempre geralmente representada simbolicamente por uma orientação ritual, propriamente direcionada em direcção a algum centro espiritual que – seja qual for – é sempre uma reflexão do verdadeiro “Centro do Mundo”.7 No entanto, à medida que o Kali-Yuga progride, mais difícil se torna alcançar a unidade com este centro, que por sua vez se torna cada vez mais fechado e oculto; ao mesmo tempo esses centros secundários que o representam externamente tornam-se mais raros;8 no entanto quando este período terminar a tradição irá necessariamente de novo manifestar-se na sua totalidade, já que o início de cada Manvantara coincide com o fim do seu predecessor, implicando então o retorno inevitável do “estado primordial” para a humanidade na terra.9

Na Europa, toda a ligação conscientemente estabelecida com o centro através da mediação de organizações ortodoxas encontra-se agora quebrada, como tem estado desde há vários séculos. Esta separação foi gradual, completada em várias etapas sucessivas em lugar de uma só vez.10 A primeira destas quebras ocorreu no início do século catorze, quando uma das principais funções das Ordens de Cavalaria era o de realizar a ligação direta entre o Oriente e o Ocidente. A importância de tal ligação será rapidamente entendida quando é relembrado que o centro tem desde sempre, pelo menos desde os tempos “históricos”, sido descrito como estando localizado no Oriente. Depois da destruição da Ordem dos Templários, a ligação foi mantida de uma forma menos aberta pelos Rosacruzes, ou por aqueles aos quais esse nome foi depois atribuído.11 A Renascença e a Reforma marcaram outra fase crítica, depois da qual, como Saint-Yves parece sugerir, a ruptura completa e final coincidiu com os tratados de Vestefália que acabaram com a Guerra dos Trinta Anos em 1648. É um facto notável, que vários escritores concordam, que os verdadeiros Rosacruzes deixaram a Europa pouco tempo depois da Guerra dos Trinta Anos para se refugiarem na Ásia: será recordado que os adeptos Rosacruzes eram doze, assim como os membros do círculo íntimo de Agarttha: ambos cumpriam, portanto, com a constituição comum a tantos outros centros espirituais formados à imagem do centro supremo.

Desde este último período, o acervo de conhecimento iniciático efectivo não tem sido devidamente mantido por qualquer civilização ocidental. De acordo com Swedenborg, o “Mundo perdido” deve portanto ser procurado entre os Sábios do Tibete e da Tartária, onde o misterioso “Monte dos Profetas” da visão de Anne-Catherine Emmerich também se localiza. A informação fragmentária que a Senhora Blavatsky conseguiu juntar nesta matéria sem a perceber na sua verdadeira acepção – deu nascimento à sua concepção da “Grande Loja Branca”, à qual não deveríamos chamar uma imagem de Agarttha, mas simplesmente uma caricatura ou uma paródia imaginária da mesma.12



1 Estas são as últimas palavras de uma profecia que o “Rei do Mundo” é suposto ter feito em 1890, quando apareceu num mosteiro em Narabanchi.

2 O Manvantara, ou a era de um Manu, também designado por Maha-Yuga, é composto por quatro Yugas ou idades secundárias: Krita-Yuga (ou Satya-Yuga), Treta-Yuga, Dwapara-Yuga e Kali-Yuga, as quais são identificáveis com a “idade do ouro”, “idade de prata”, “idade de bronze” e “idade de ferro”, da antiguidade greco-latina, respetivamente. Na sucessão destes períodos existe um tipo de materialização progressiva resultante de um distanciamento gradual do Princípio que acompanha o desenvolvimento do ciclo de manifestação no mundo corpóreo, desde o “estado primordial”.

3 O início desta idade está, no simbolismo bíblico, representado pela Torre de Babel e pela “confusão das línguas”. Podia-se logicamente pensar que a queda e o dilúvio correspondem ao fim das duas primeiras idades; mas, na realidade, o ponto de partida da tradição hebraica não corresponde ao início do Manvantara. Não deve ser esquecido que as leis cíclicas aplicam-se em diversos graus, para períodos de extensão desigual, os quais que por sua vez por vezes se sobrepõem; portanto, as complicações que, à primeira vista, parecem inextrincáveis e que podem com efeito ser resolvidas apenas por considerar a ordem de subordinação hierárquica dos correspondentes centros tradicionais.

4 Parece que nunca houve reconhecimento do facto de que os historiadores acham praticamente impossível em todas as culturas estabelecerem uma cronologia inquestionável para tudo o que é anterior ao século sexto antes da era Cristã.

5 O que dissemos permite-nos interpretar as seguintes palavras do Evangelho de um modo muito preciso: “procurem, e hão-de encontrar; batam à porta, e ela há-de abrir-se, pois o que pede, recebe; o que procura, encontra; e a quem bate, a porta se abrirá.” Aqui deve-se naturalmente referir as indicações que já demos relativo à “boa intenção” e à “boa vontade”; a explicação da expressão Pax in terra hominibus bonae voluntatis [Paz na Terra aos homens de boa vontade] é facilmente compreendida neste contexto.

6 Esta expressão foi emprestada da doutrina Taoista; além disso, entendemos aqui a palavra “intenção” no exato mesmo sentido que o niyah arábico, o qual é assim usualmente traduzido, para além de isto se conformar à etimologia latina (de in-tendere, “tender a”).

7 No Islão, esta orientação (qiblah) é como se fosse a materialização, se podemos utilizar a expressão, da intenção (niyah). A orientação das igrejas Cristãs é outro caso particular que está essencialmente ligado a esta ideia.

8 Apenas uma relativa materialização é, claro está, pretendida, já que estes centros secundários têm eles mesmo sido mais ou menos estritamente fechados desde o início do Kali-Yuga.

9 Esta é a manifestação da celestial Jerusalém, que é, em conexão com o ciclo que está a terminar, a mesma coisa que o Paraíso Terrestre em conexão com o ciclo que está a começar, como explicado no livro L´Esoterisme de Dante.

10 Do mesmo modo, de um ponto de vista mais alargado, existem graus para a humanidade nos distantes confins desde o centro primordial, e é a estes graus que a distinção dos diferentes Yugas corresponde.

11 Aqui de novo nos referimos ao nosso estudo L´Esoterisme de Dante, onde fornecemos toda a necessária informação de suporte.


12 Aqueles que entendem todas as considerações aqui expostas irão ver como consequência clara porque não podemos tomar seriamente as muitas pseudo-organizações iniciáticas nascidas no Ocidente contemporâneo: nenhuma delas, se sujeita a um exame rigoroso, poderia provar a menor prova de “regularidade”.

Tuesday, October 17, 2017

René Guénon - A Crise do Mundo Moderno




Na continuação da senda de disponibilizar conteúdos dos Mestres da Tradição, tanto em forma escrita como em áudio, em língua portuguesa, é com prazer que comunicamos que o áudio do livro "A Crise do Mundo Moderno", de René Guénon, se encontra já disponível no youtube.

Este tomo é uma introdução fundamental a toda à vasta obra do autor e ao Perenialismo em geral, já que Guénon expõe aqui, em traços gerais, a morfologia e os paradigmas do mundo moderno, criticando-o por esta ser o caso nos anais da história da presente humanidade em que uma dita "civilização" se construiu com base na negação dos princípios metafísicos que sempre regeram os assuntos do povos.

Praticamente desconhecido pela dita intelligentsia que ocupa no tempo presente as universidades e os meios culturais ocidentais - por razões que se tornarão muito óbvias a quem se debruçar na sua obra - este autor único do século XX escapa a qualquer apodo que se tente colar à sua figura e legado, já que as palavras 'místico', 'ocultista', 'filósofo', 'intelectual', 'matemático', 'tradicionalista' ou 'orientalista' não conseguem captar a essência da obra ímpar que nos deixou (que se estende do campo matemático à crítica da filosofia modernista, da metafísica hindu ao esoterismo cristão e islâmico, da escoriação dos pretensos movimentos religiosos e pseudo-ocultistas do século XX aos estudos da simbologia real e religiosa, da interpretação da história do mundo antigo à análise da atual e da antiga função da maçonaria e grupos ocultistas, e por aí adiante) e cuja leitura aprofundada  é fundamental para todos os que se dizem amantes da Verdade e buscam de coração limpo o Uno, o Imutável, o Universal.

Humildemente deixamos este áudio que, não sem defeitos, tem o objetivo de ser um ponto de partida para o estudo sincero das profundíssimas matérias a que Guénon dedicou toda a sua vida e que considerou ser a sua missão nesta sua etapa terrestre.

Tuesday, August 8, 2017

Ofícios Antigos e a Indústria Moderna




Em baixo deixo a tradução do capítulo VIII, do livro de René Guenon intitulado “O Reino da Quantidade e os Sinais dos Tempos”, originalmente publicado em francês em 1945, e do qual aqui se traduz da edição inglesa de 2001 da Editora Sophia Perennis.

Constituindo este livro uma explanação mais desenvolvida do diagnóstico feito pelo autor no seu “Crise do Mundo Moderno”, principalmente no que toca à crescente quantificação do mundo, suas causas e, muito interessante, no que constituirá o seu apex.

O presente capítulo apresenta o contraste entre a natureza moderna do trabalho, de caráter demónico, com as antigas artes e ofícios que ligadas a sistemas verdadeiramente tradicionais permitiam uma via para o conhecimento iniciático, para além da sua função integradora no contexto social e económico. Realçar aqui que esta via esotérica estaria aberta independentemente da particular religião ou legislação exotérica prevalente na respetiva comunidade, contando que as vias de possibilidades de tal iniciação se encontrassem abertas, o que hoje já praticamente não acontece.



Ofícios Antigos e a Indústria Moderna

Existe um grande contraste entre o que os antigos ofícios costumavam ser e o que a indústria moderna é agora, e isto mostra no seu essencial outro caso particular e ao mesmo tempo uma aplicação prática do contraste entre um ponto de vista qualitativo e quantitativo, que predomina num e noutro, respetivamente. Em ordem para ver a razão de tal, é útil notar primeiro que tudo o que a distinção entre artes e os ofícios, ou entre o “artista” e o ”artesão”, é em si mesma algo especificamente moderno, como se tivesse nascido da desvio e da degeneração que tem levado à substituição em todos os campos da conceção tradicional pela conceção profana. Para os antigos o artifex era indiferentemente o homem que praticava uma arte ou um ofício; mas ele era, para dizer a verdade, algo que nem o artista nem o artesão são hoje, se essas palavras são usadas no sentido moderno (ademais a palavra “artesão” tende mais e mais a desaparecer da linguagem contemporânea); ele era algo mais que tanto um como o outro porque, ao menos originalmente, a sua atividade estava delimitada por princípios de uma ordem muito mais profunda. Se os ofícios costumavam englobar de uma forma ou outra as artes propriamente ditas, tal é porque a natureza dos ofícios era verdadeiramente qualitativa, já que ninguém pode recusar admitir que tal é a natureza da arte, mais ou menos por definição. No entanto, os modernos, por essa mesma razão, estreitamente restringiram a sua conceção de arte, relegando-a a uma espécie de domínio fechado sem conexão com o resto da atividade humana, isto é, com o que consideram que constitui a “realidade”, usando a palavra no mesmo sentido cru que esta tem para eles; e eles vão ao ponto de livremente atribuir à arte, roubada portanto de toda a sua significação prática, o carácter de um “luxo”, um termo totalmente característico da que pode sem qualquer exagero ser chamada da “parvoíce” do nosso período.

Em toda a civilização tradicional, como tem sido posto à evidência, toda a atividade humana de qualquer tipo é sempre considerada como derivada essencialmente de princípios. Isto é conspicuamente verdadeiro para as ciências, e não é menos verdade para as artes e para os ofícios, e existe adicionalmente uma ligação próxima entre elas todas, já que de acordo com uma fórmula postulada como um axioma fundamental pelos construtores da Idade Média, ars sine scientia nihil; a ciência em questão é com certeza ciência tradicional, e certamente não ciência moderna, a aplicação da qual pode dar nascimento a nada exceto à indústria moderna. Por esta ligação a princípios, a atividade humana podia dizer-se estar como que “transformada”, e em vez de estar limitada ao que é em si mesma, nomeadamente, a uma mera manifestação externa (e o ponto de vista profano consiste nisto e nada mais), ela é integrada com a tradição, e constitui para aqueles que a desempenham um meio efetivo de participação na tradição, e isto é como dizer que carregava consigo um caráter verdadeiramente “sagrado” e “ritual”. Isso é porque pode ser dito, em qualquer civilização, que “toda a ocupação é um sacerdócio”;1 mas em ordem para evitar conferir a esta última palavra uma maior ou menor extensão de sentido ilegítima, se não uma falsa, deve se claro que sacerdócio não é sacerdócio a não ser que possua algo que foi preservado apenas nas funções sacerdotais, desde o tempo em que a prévia não existente distinção entre sagrado e profano surgiu.

Para ver o que se significa pelo caráter “sagrado” de toda a atividade humana, mesmo que só de um ponto de vista exterior, ou, se preferido, exotérico, é só preciso considerar uma civilização como a Islâmica, ou a civilização Cristã da Idade Média; é fácil ver que nelas as mais comuns ações da vida têm algo de “religioso”. Em tais civilizações a religião não é algo restrito, estritamente limitado e que ocupe um lugar aparte, sem influência efetiva em nada mais, como o é para os modernos Ocidentais (pelo menos para os quais que ainda consentem em admitir a religião de todo); pelo contrário ela penetra toda a existência do ser humano, ou melhor, ela abraça dentro do seu domínio tudo o que constitui essa existência, e particularmente a vida social propriamente dita, tanto que não existe realmente nada que sobre que seja “profano”, exceto no caso daqueles que por uma razão ou por outra estejam fora da tradição, mas quaisquer desses casos representam então nada menos que uma mera anomalia. Noutros lugares, onde a palavra “religião” não pode ser propriamente aplicada à forma da civilização considerada, existe no entanto uma legislação tradicional e “sagrada” que representa um papel equivalente mesmo que tenha um caráter diferente, sendo considerações similares então aplicadas a todas as civilizações tradicionais sem exceção. Mas existe algo mais: olhando para o esoterismo em vez do exoterismo (sendo estas palavras utilizadas por conveniência apesar de não serem estritamente aplicáveis a todos os casos da mesma maneira) torna-se claro que existe, de uma forma geral, uma iniciação ligada aos ofícios e que os utilizam como a sua base ou o seu “suporte”;2 estes ofícios devem portanto ser capazes de uma significação superior e mais profunda se eles são supostos de providenciar um caminho de acesso ao domínio iniciático, e é por razão do seu caráter essencialmente qualitativo que evidentemente tal coisa é possível.

A noção que mais ajuda em direção a um entendimento deste ponto é aquela que a doutrina Hindu chama de svadharma. Em si esta noção é inteiramente qualitativa, já que implica a realização por qualquer ser humano de uma atividade conforme com a sua particular essência ou natureza, e daí ser conforme à “ordem” (rita) no sentido já explicado; e é esta mesma noção, ou antes a sua ausência, que indica tão claramente onde a conceção profana e moderna falha. De fato, de acordo com a conceção moderna um homem pode adotar qualquer profissão, e até mudá-la se tal favorece o seu capricho, como se a profissão fosse algo totalmente fora dele próprio, não tendo qualquer ligação com o que ele realmente é, isso por virtude do qual ele é ele próprio e não qualquer outro. De acordo com a conceção tradicional, de outro modo, cada pessoa tem normalmente de cumprir a função para a qual ele está destinado pela sua própria natureza, usando as particulares aptitudes essencialmente implícitas na sua natureza como tal;3 ele não pode cumprir uma função diferente exceto sob custo de uma desordem séria, a qual terá as suas repercussões em toda a organização social de que ele é uma parte; e muito mais que isto, se tal tipo de desordem se tornar geral, começará a ter um efeito no próprio ambiente cósmico, já que todas as coisas estão ligadas por rigorosas correspondências. Sem desenvolver mais este último ponto, apesar de uma aplicação às condições modernas poder bem ser feita, o que foi dito até agora pode ser então sumarizado: de acordo com a conceção tradicional, são as qualidades essenciais dos seres que determinam as suas atividades; de acordo com a conceção profana de outro modo, estas qualidades já não são tomadas em conta, e os indivíduos são considerados não mais que permutáveis e puramente “unidades” numéricas. A última conceção pode só logicamente levar ao exercício de uma atividade integralmente “mecânica”, na qual nada resta de verdadeiramente humano, e isso é exatamente o que podemos ver acontecendo hoje. É quase desnecessário dizer que as atividades “mecânicas” dos modernos, que constituem indústria propriamente dita e que são só um produto de um desvio profano, não podem oferecer qualquer possibilidade de uma iniciação de qualquer tipo, e mais, elas mais não podem ser que obstáculos ao desenvolvimento de toda a espiritualidade; de fato elas não podem propriamente ser consideradas como autênticos ofícios, se essa palavra quer reter a força do seu significado tradicional.

Se o ofício é como se fosse uma parte do próprio homem e uma manifestação ou expansão da sua própria natureza, é fácil ver como pode servir como base para uma iniciação, e porque é a melhor base possível numa maioria de casos. Iniciação tem de fato como o seu objetivo a superação das possibilidades do indivíduo humano como tal, mas não é menos verdade que pode apenas tomar tal indivíduo como ele é como ponto de partida, e então só por apoio no seu lado superior, isto é, por juntar-se ela própria áquilo que nele é verdadeiramente qualitativo; então a diversidade de caminhos iniciáticos, em outras palavras, dos meios usados como “suportes” em ordem para se adaptar às diferenças das naturezas individuais; estas diferenças tornam-se, no entanto, de menos importância à medida que o tempo passa, em proporção com ser avançar no seu caminho e que portanto se aproxima do fim que é igual para todos. Os meios empregues não podem ser efetivos a não ser que eles realmente sirvam a natureza própria do ser aos quais eles se aplicam; e já que é necessário trabalhar a partir do que é mais acessível em direção ao que o é menos, do exterior para o interior, é normal escolhê-los no seio da atividade pela qual a sua natureza se manifesta exteriormente. Mas é óbvio que esta atividade não pode ser usada de qualquer outra maneira que não seja por efetivamente expressar a natureza interior; portanto a questão realmente torna-se uma de “qualificação” no senso iniciático da palavra; e em condições normais, a mesma “qualificação” deve ser um requerimento para a prática do próprio ofício. Tudo isto está também ligado com a diferença fundamental que separa o ensinamento iniciático, e mais geralmente todo o ensinamento tradicional, do ensinamento profano. Tudo que é simplesmente “aprendido” de fora não tem qualquer valor no primeiro caso, independentemente das grandes quantidade de noções acumuladas (para aqui também “ensinamento” profano mostra claramente a marca da quantidade); o que conta é, ao contrário, um “acordar” das possibilidades latentes que o ser traz consigo (o que é, em última análise, o significado real da “reminiscência” Platónica).4

Estas últimas considerações fazem entendível que a iniciação, usando a o ofício como “suporte”, tem ao mesmo tempo, e como se fosse uma num sentido complementar, uma repercussão na prática do ofício. O artesão, tendo realizado totalmente as possibilidades das quais a sua atividade profissional é a sua expressão externa, e portanto possuindo o conhecimento efetivo daquilo que é o verdadeiro sentido da sua atividade, vai então conscientemente atingir aquilo que previamente era só uma consequência bastante “instintiva” da sua natureza; e portanto, já que o conhecimento iniciático nasce do ofício, o ofício por sua vez tornar-se-á o campo de aplicação do conhecimento, do qual não se poderá mais separar. Haverá então uma correspondência perfeita entre o interior e o exterior, e o trabalho produzido pode então tornar-se a expressão, não mais só até um certo grau e de uma maneira mais ou menos superficial, mas a expressão adequada, daquele que o concebeu e o executou, e constituir-se-á numa “obra de arte” no verdadeiro sentido da palavra.

Não há portanto dificuldade em ver o quanto afastado o verdadeiro ofício está da indústria moderna, tanto que os dois estão como que opostos, e quão é tristemente verdade que no “reino da quantidade” o ofício é, como os partidários do “progresso” tão rapidamente declaram, uma “coisa do passado”. O trabalhador em indústria não pode pôr no trabalho nada dele próprio, e muito esforço seria até posto para o prevenir se ele tivesse ainda que a mínima inclinação para o fazer; mas ele não pode nem tentar, porque a sua atividade consiste somente em fazer uma máquina andar, e porque de mais ele é considerado bastante incapaz de iniciativa pela “formação” – ou antes deformação - profissional que tenha recebido, que é praticamente a antítese da aprendizagem antiga, e cujo único objetivo é ensiná-lo a executar certos movimentos “mecanicamente” e sempre da mesma maneira, sem ter de todo que entender a razão deles ou de preocupar-se com o resultado, já que não é ele, mas a máquina, que verdadeiramente fabricará o objeto. Servente da máquina, o homem deve tornar-se a máquina ele próprio, e então o seu trabalho nada terá de verdadeiramente humano, já que não implica pôr ao serviço quaisquer das qualidades que realmente constituem a natureza humana.5 O fim de tudo isto é o que o jargão moderno chama de “produção em massa”, o objetivo da qual é só produzir a maior quantidade possível de objetos, e de objetos os mais exatamente iguais possível, com o objetivo de uso por homens que são supostos não serem menos iguais; esse é de facto o triunfo da quantidade, como foi apontado mais cedo, e é pela mesma bitola o triunfo da uniformidade. Estes homens que estão reduzidos a meras “unidades” numéricas são supostos viver no que dificilmente se podem chamar casas, já que tal seria abusar da palavra, mas em “colmeias” das quais os compartimentos serão todos planeados com base no mesmo modelo, e mobiladas com objetos feitos em “produção de massa”, de maneira a causar o desaparecimento no ambiente em que as pessoas vivem de qualquer diferença qualitativa; é suficiente examinar os projetos de alguns arquitetos contemporâneos (que descrevem os próprios as habitações como “máquinas vivas”) para ver que nada tem sido exagerado. O que então aconteceu à arte tradicional e à ciência dos antigos construtores, ou às regras rituais pelas quais o estabelecimento de cidades e edifícios eram regulados em civilizações normais? Seria inútil pressionar mais este assunto, porque um teria de ser cego para não ver o abismo que separa o normal da civilização moderna, e sem dúvida todos concordarão em reconhecer quão grande a diferença é; mas aquilo que a vasta maioria dos homens hoje vivos celebra como “progresso” é exatamente o que é apresentado agora ao leitor como uma decadência profunda, acelerando continuamente, a qual arrasta a humanidade para o esgoto onde a quantidade pura reina.


1.           A.M. Hocart, Les Castes (Paris: P. Geuthner, 1938), p27. [Caste: A Comparative Study (New York: Russell and Russell, 1968).]

2.           Deve ser notado que tudo o que ainda persiste no Ocidente de verdadeiras organizações iniciáticas, qualquer que seja o seu presente estado de decadência, não tem outra origem que não esta. Iniciações pertencentes a outras categorias desapareceram completamente há muito tempo.

3.           Deve ser notado que a palavra francesa metier é etimologicamente derivada do latim ministerium, e propriamente significa “função”

4.           Neste tema ver particularmente o Meno de Platão.

5.           Deve ser notado que a máquina é num sentido o oposto do instrumento, e não é de modo nenhum um “instrumento aperfeiçoado” como muitos imaginam, já que o instrumento é de certa maneira um “prolongamento” do próprio homem, enquanto que a máquina reduz o homem a nada mais que o seu servo; e, se fosse verdade dizer que “o instrumento cria o ofício”, não é menos verdade que a máquina mata-o; as reações instintivas dos artesões contra as primeiras máquinas falam por si próprias.


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